11 de Julho de 2009

Escrever sobre Saramago é sempre mais difícil. Pela enorme admiração que tenho pela sua obra, pela enorme dimensão humana da personalidade, pela sua afirmação constante e corajosa de comunista militante do PCP.
Ao longo de muitos anos, Saramago sempre teve posições algo polémicas sobre diversos assuntos, inaugurou e ampliou diversos debates sobre o óbvio e o não óbvio, uma estranha capacidade de polemizar.
Esta forma de estar parece-me natural, quase coerente, com a condição de intelectual. Como dizia Pier Paolo Pasolini, "Eu sei muito bem, meu caro Calvino, como é a vida de um intelectual. E sei-o porque, em parte, é também a minha vida. Leituras, a solidão no escritório, círculos em geral de poucos amigos e muitos conhecidos, todos intelectuais e burgueses." Considero eu então, compreensível o posicionameto intermitente de Saramago, o isolamento característico muitas vezes frutifica num ego grande, carente de alguma atenção, assim, sempre me pareceu que alguma da expressão pública de Saramago seria em certo sentido uma criação da sua própria vida, ainda que como um círculo onde o início e o fim são indefinidos.
Há pouco tempo atrás escrevia Saramago “A esquerda não tem nem uma puta ideia do mundo em que vive”. Não levei isto muito a sério, parecia-me uma expressão tão ostensivamente leviana, que considerei não se tratar de mais que uma demonstração de descontentamento ou frustração, um desabafo de alma, enfim, um espasmo sem dolo nem profundidade. Algo perfeitamente inquadrável no que atrás escrevi. Mas secalhar enganei-me.
Hoje é notícia o apoio de Saramago a António Costa na eleição para a CMLisboa. Não obstante tudo, acho que desta vez é demais, porque objectivamente, Saramago coloca-se do "outro lado", e parece ser ele próprio vítima da sua profecia parecendo ser ele "quem não tem uma puta ideia do mundo em que vive".
Saramago não só abandona uma causa, momentaneamente ou não, como concorre contra ela. Abandona aqueles que com ele sempre estiveram na tempestade e na bonança. E quanto mal lhe ficou o anúncio no momento em que a CML deu 30000euros para um filme com base no seu romance, num mandato autárquico em que já lhe havia sido dispensada a "Casa dos Bicos" para sede da sua Fundação. Há aqui qualquer coisa que soa a troca. Uma troca que a ser verdade seria vergonhosa e abaladora, mas que não o sendo fica mal na mesma...

8 comentários:

Bruno disse...

Sobre, e para Saramago, não esqueço esta carta: http://resistir.info/petras/carta_a_saramago.html

Anónimo disse...

Em 2008 apoiou o Zapatero, o grande amigo do Sócrates, como podes ler em
http://resistir.info/espanha/deriva.html publicada em 27/Fevereiro/2008

filipe guerra disse...

Obrigado pelos links.

Paulo Mouta disse...

Escrever sobre Saramago é muito complexo mas não creio que devamos ter precipitações de julgamento. Saramago foi abertamente favorável a uma coligação de esquerda em Lisboa. A sua frase encaixa que nem uma luva na incapacidade que existiu de ser criado um consenso em matéria autárquica no município lisboeta. Trata-se de política autárquica e não de ideologia, princípios ou valores. Se a esquerda política não consegue, - em contradição com o que sucedeu no passado apenas porque existe um senhor chamado Sócrates como primeiro-ministro – desenvolver algo tão simples como um projecto autárquico em conjunto é porque realmente “A esquerda não tem nem uma puta ideia do mundo em que vive”.

Nem sempre concordei com Saramago e neste caso também não concordo, no entanto entendo perfeitamente o seu estado de espírito e a sua posição.

Anónimo disse...

O saramago vai demonstrando aquilo que sempre foi , é quase como aquelas pessoas que dizem não acreditar em deus durante a vida e na hora da morte não têm medo de dizer que sempre acreditaram e são recebidos de bracinhos abertos por deus nosso senhor !

filipe guerra disse...

Viva Paulo,

Não estou de acordo com o teu comentário, principalmente com este "Trata-se de política autárquica e não de ideologia, princípios ou valores".
A política autrárquica é ideologia, não tenhas dúvidas, e da boa. A decisão de privatizar um serviço de águas ou de transportes é ideologia.
No passado houve uma ocasiao histórica em Lx onde foi possível imaginar e construir essa coligação. Objectivamente hoje não existem condições políticas para isso, por culpa exclusiva do PS.
Mas sim , de facto, esta história encaixa como uma luva na história da coligação que saramago defendia.
abraço

Pedro Nuno disse...

A forma como trata a "sua" nacionalidade Portuguesa deixa muito a desejar. Portugal já lhe deu muito e, no entanto, parece ter vergonha de se assumir como Português, identificando-se grande parte das vezes, directa ou indirectamente, com Espanha.

Anónimo disse...

A cassete a funciomar !"!
Já vamos no MP4