25 de Novembro de 2009

Num movimento apenas, coordenando mais de 650 polícias por todo o País Basco, o Juiz da Audiência Nacional espanhola Grande Marlaska deteve 34 jovens bascos. A acusação é que fazem parte da Segi, que para o Estado espanhol é uma organização juvenil instrumentalizada pela ETA. Não vale a pena grandes comentários sobre a anormalidade de tudo isto, afinal de contas, e como o Estado espanhol gosta de frisar, Euskal Herria vive em estado de excepção. Normalmente os detidos nestas situações são apresentados envoltos em figurinos sinistros, contextualizando-os como gente marginalizada, rancorosa, sem esperança, violenta e com sangue até aos cotovelos. Num processo que se pode designar como de "bestialização do inimigo".

Num artigo publicado ontem no jornal Gara podemos perceber o contrário, num artigo de Inaki Iriondo intitulado "Comprometidos e preparados de sobra", Inaki escreveu que "Os jovens detidos ontem são conhecidos e estimados no seu meio social. Não escondem a sua ideologia, a maioria realizava ou tinha realizado estudos com normalidade e, além da sua militância política, trabalhavam nas mais diversas associações. Um retrato distante da imagem que certos meios vendem e que é comum na esquerda Abertzale".
Os advogados dos jovens independentistas detidos, visto que estes estão incomunicáveis, pediram a tomada de medidas que pudessem prevenir a sua tortura durante a detenção, o Juiz recusou a aplicação das medidas solicitadas.

17 de Novembro de 2009

redacted


Passou na RTP2 na passada Segunda por volta da 1 da manhã o filme Redacted, um filme de que nunca ouvira falar. Deixou-me perfeitamente siderado em frente à televisão.
Além dos aspectos estéticos, da boa fotografia e tal, que contribuem para prender a atenção de qualquer um, o filme tinha uma componente emotiva e psicológica com uma carga como eu há muito não via.
O filme de Brian de Palma mistura documentário e ficção, sobre os militares americanos que estão no Iraque. A lente exibia um ambiente de caserna, em que se por um lado havia um ou outro soldado mais escrupuloso, por outro, o ambiente reinante era de um total desprezo pela condição humana, pela vida e dignidade humana, não apenas do suposto inimigo, mas pela população iraquiana. Sob a capa da expressão hadji, que tanto cobre um insurgente como uma criança, todos os também designados pretos da areia seriam um alvo a abater, sem qualquer reflexão, dó ou piedade.
O realizador filma imagens imagináveis no III reich, soldados arrombando casas a meio da noite instalando o pânico e raptando homens, soldados provocando cidadãos no meio das ruas, soldados utilizando os checkpoints para apalpar mulheres, 3 soldados massacrando uma família para mais facilmente violarem uma jovem iraquiana de 15 anos que seria queimada no fim. do acto. Um filme violentíssimo, que nos conduz para uma noção da guerra.
Registo o inenarrável papel das forças imperialistas no Iraque, a forma por vezes corajosa e por vezes também violentíssima como respondem algumas correntes insurgentes, mas regista-se essencialmente e tragicamente o enorme pânico e medo, que culmina no ódio, das populações iraquianas pelas forças de ocupação.
Recomendo vivamente este filme de documentário/ficção.

13 de Novembro de 2009

o bibi da sucata

"O sistema judicial português enfrenta o imenso desafio de não deixar que o Face Oculta se torne numa segunda Casa Pia.(...) Mas, há ainda um perturbante sinal de identidade com a Casa Pia. É que o único detido, até aqui, é o equivalente ao Bibi.(...) Tecnicamente, Manuel Godinho não pode ser mais do que um Carls Silvino da sucata(...) Godinho não é mais do que um executivo empenhado e bem pago de uma quadrilha de altos executivos, conhecedores do sistema e das suas vulnerabilidades, que mandou nele. É preciso ir aos responsáveis pelas empresas públicas e aos ministérios que as tutelam"
Mário Crespo, Jornal de Notícias, 9.11.09

O articulista Mário Crespo faz uma curiosa e certeira metáfora.
O foco essencial no combate à corrupção não pode ser o ataque aos juízes, à Polícia Judiciária ou ao Ministério Público, com as habituais e incorrectamente imputadas críticas à morosidade ou à azelhice deste ou daquele agente. O problema é político, e é na alteração da lei processual penal e penal que estão os ónus das falhas do sistema. Vide quem e que propostas tem apresentado na A.R. e quais os resultados das subsequentes votações, talvez assim se perceba qual o rumo do sistema e quem o tem empurrado.
O momento actual é perigoso porque quem detém o poder político são exactamente os mesmos agentes em que de forma individual ou colectiva, recaem as maiores suspeitas. Fica a impressão que a Justiça ficou refém dos malfeitores.


(Candida Monteiro e Almeida Santos, artigo de Pedro Lomba, Sócrates e Pinto Monteiro)

9 de Novembro de 2009

a verdade da mentira

Não tenho particular apreço por muros, alguns deles metem-me algum nojo, pelo seu cariz racista, xenófobo, capitalista, imperialista, humilhante e explorador, são tanta e tanta coisa, alguns simbolizam até a tentativa de extermínio de povos. Na actualidade são indicáveis muros como o west bank na Palestina por Israel, na Irlanda do Norte, em Ceuta e Melilla, no Chipre entre gregos e turcos, na fronteira com o México pelos EUA, ou o Paquistão/Indía . Exemplos de muros que o capitalismo construiu com um único objectivo: ataque.


Por estes dias "comemora-se" os 20 anos do derrube do "muro de Berlim". Motivo de gáudio para os ululantes do capitalismo, de rejubilo para tutti quanti que vão fazendo do pensamento dominante o seu próprio, de realizações e reportagens mais ou menos repetitivas com as mesmas personagens estafadas de sempre explicando "às gerações mais novas" o que "foi" o socialismo, a fome e a peste.
Num período histórico em que todos os sinais económicos apontam para um colapso do capitalismo, não para os capitalistas mas para os que sentem na pele o capitalismo, este aniversário serve para mais uma vergonhosa operação de branqueamento e de ajuste de contas com a História. Parece ser caso para dizer que o susto foi tão grande que vinte anos depois ainda não se calaram...
Há uns anos atrás, em Berlim(na zona Leste) descia a Karl Marx Alle em direcção à imponente Alexanderplatz e entrei numa loja. Após algum tempo a ver artigos senti confiança com um tipo de 30 e tais que lá estava a trabalhar e meti conversa com ele. Perguntei-lhe como eram as coisas dantes, ao que ele me respondeu "eram mais ou menos como hoje, só que não tinhamos desemprego, havia mais qualidade de vida e muito mais esperança no futuro" acrescentou ainda que a sociedade era muito mais "solidária".
Passaram vinte anos, e as esperanças da reunificação ficaram pelo caminho, a igualdade prometida foi promessa que o vento rapidamente levou e aos que nasceram na DDR foi retirado o que de melhor a experiência socialista lhes trouxe.
Passaram vinte anos e não há sondagem nenhuma que esconda a desilusão do povo de Leste, pejurativamente apelidado de ossis. Em recente sondagem de 26 de Junho, o jornal Berliner Zeitung, concluiu que «a maioria dos inquiridos considera que a antiga República Democrática Alemã (RDA) tinha “mais aspectos positivos que negativos"” e que "Passados 20 anos de anexação, 57 por cento da população da ex-RDA continua a defender o socialismo.", também uma recente sondagem do jornal alemão Der Spiegel, concluiu que 92% dos alemães orientais com mais de 17 anos preferiam viver na RDA, e em que 60% dos jovens lamentam que as garantias sociais do socialismo tenham desaparecido.
Julgo que vale a pena lembrar as palavras de Erich Honecker no infame julgamento a que foi submetido: «cada vez mais alemães de Leste constatarão que tinham as condições de vida menos deformadas na RDA do que os alemães ocidentais com a economia “social” de mercado; que as crianças da RDA, nas creches, jardins-de-infância e escolas cresciam mais felizes, menos preocupadas, mais bem formadas e mais livres que as crianças da RFA (...). Os doentes constatarão que, apesar dos seus atrasos técnicos, o sistema de saúde da RDA os considerava como pacientes e não como objectos comerciais (...) Os artistas compreenderão que a censura da RDA, real ou imaginada, não era tão hostil aos artistas como a censura do mercado (...) Reconhecerão que na vida quotidiana, em particular no local de trabalho, tinham na RDA uma liberdade inigualável.»

5 de Novembro de 2009

Outubro sempre!







"Foi aos operários russos que coube a honra e a alegria de serem os primeiros a desencadear a revolução, quer dizer, a grande guerra, a única guerra justa e legítima, a guerra dos oprimidos contra os opressores.

Só quando os de baixo não querem o que é velho e os de cima não podem continuar como dantes, só então a revolução poerá vencer.

A revolução não pode ser imaginada como um acto único(...) mas como uma rápida sucessão de explosões mais ou menos violentas, alternando com períodos de clama mais ou menos profunda.

Os capitalistas sempre chamaram liberdade à liberdade de obter lucros para os ricos, à liberdade de os operários morrerem de fome.

Quem não tiver compreendido a necessidade da ditadura de qualquer classe revolucionária para alcançar a vitória não compreendeu nada da história das revoluções ou não quer saber nada desse domínio."

V.I.Lenine



este senhor funcionário pega no meu passaporte vermelho.

pega-lhe como se fosse uma bomba,

pega-lhe, como se fosse um ouriço como se fosse uma lâmina de dois gumes,

pega-lhe como se fosse uma cobrade vinte dentes,uma cobra pelo menos com dois metros.

piscou significativamente o olho ao carregador, que traz a bagagem de graça.

O gendarme interrogativamente olha para o secreta,

O secreta olha para o gendarme.

Com que prazer a casta policial me teria chicoteado e crucuficado

porque tenho nas mãos o martelo e a foice

do meu passaporte soviético.

Era capaz de devorar a burocracia.

Nao tenho respeito pelos documentos

Ao diabo mandaria todos os papéis

Mas este...

Tiro dos meus bolsos fundos um atestado de inestimável peso.

Leiam bem, invejem,

eu sou cidadão da União Soviética

Mayakovsky